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domingo, 10 de agosto de 2008

Coração de ouro


(...) Ninguém tinha levado uma flor sequer para a minha professora D. Cecília Paim. Devia ser porque ela era feia. Se ela não tivesse uma pintinha no olho, não era tão feia. Mas era a única que dava um tostão pra mim pra comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.
Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. Só o copo da minha continuava vazio.

(...)

A escola. A flor. A flor. A escola...

Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou pra flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zézé. Espere um pouco.
(...)

- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zézé. É verdade?
(...)
- Da flor? É sim, senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que não faz falta.
- Sim. mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso.
(...)
Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro... E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?...
- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some...
- Eu não podia aceitar todos os dias...
- Porquê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A senhora não vê a Corujinha?
-Quem é a Corujinha?
- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
-Sei, a Dorotília.
- É sim senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu e as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Eu divido o sonho que a senhora me dá com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo o sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido meu sonho porque mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
- Não é isso Zézé. Venha cá.
Pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zézé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Pra mim você tem. de agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma, você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro...


in O Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos

Sonhos doces podem ser também o querer acreditar que esta doçura, ternura e pureza podem existir sempre... e eu sou uma sonhadora!!!


E para quem está com dificuldade em chorar para libertar muito do que vai dentro de si... um bom conselho, este livro... chora-se da primeira à última página e repete-se vezes sem conta ao longo dos anos...

... eu diria... é de ler e chorar por mais... tanto ou mais, só mesmo vendo o filme "O campeão" - Minha nossa!!

Eu também vejo SEMPRE a minha flor... ela está lá...

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Nenhum Olhar


Aí está mais um livro terminado! Este, por vários motivos, levou mais um tempinho do que o habitual.

Um livro, para mim, de leitura algo complicada mas no entanto envolvente. A certa altura a fazer lembrar Saramago por nos deixar sem fôlego na ânsia de chegar ao fim de uma ideia...
Um livro triste, uma história diferente, um livro diferente e um autor a considerar. A requerer muita atenção para não nos perdermos na confusão de narradores e de personagens... com a Planície Alentejana como pano de fundo, sob um Sol abrasador e... nenhum Olhar...

Obrigada Fernando Lusbelo e Gina pela oferta e como diz no autógrafo do autor:


"(...) páginas de homens e mulheres da terra, de anjos e demónios do Céu. (...)"

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sábado, 10 de maio de 2008

A Rapariga Que Roubava Livros...



Terminou!! Gostei!!

Um livro que nos leva à segunda Guerra Mundial, uma história que pode ser a de tantos milhares de pessoas e narrada por uma das personagens principais de qualquer Guerra - a Morte - a própria!
Diferente, sem ser demasiado pesado não deixando de ser dramático, ou não estivessemos a falar de Guerra, de crianças... as lágrimas, essa rolaram quase inconscientemente principalmente nas últimas páginas - mas eu sou suspeita ...


A Sinopse:

Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. na Rua Himmel as pessoas vivem um dia-a-dia penoso, sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte, narradora omnipresente e omnisciente, cansada de recolher almas, observa com compaixão e fascínio a estranha natureza dos humanos. Através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos. Hans, o pintor acordeonista dos olhos de prata, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, cujo herói era o atleta negro Jesse Owen, e de Max, o pugilista judeu que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann e que escreveu e ilustrou livros, para oferecer à rapariga que roubava livros, sobre as páginas de Mein Kampf recuperadas com tinta branca, ou ainda a história da mulher que convidou Liesel a frequentar a sua biblioteca, enquanto os nazis queimavam livros proibidos em grandes fogueiras. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

O livro que se segue é: Nenhum Olhar de José Luis Peixoto

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quarta-feira, 9 de abril de 2008

O último ano em Luanda


Terminei ontem à noite a leitura de mais este romance, baseado em factos verídicos, de Tiago Rebelo. Gosto da sua escrita e gosto de ler o que envolve algo que me é tão próximo, tão presente, tão querido - Angola!
Confesso... nem sempre as lágrimas foram contidas - sim, sou de lágrima fácil - mas, não creio, que mesmo quem não o seja, consiga ficar indiferente a determinadas passagens ...
Imaginar que aquilo que é descrito de facto aconteceu, se não exactamente como é retratado, muito perto disso - pensar que os meus se viram envolvidos, uns mais, outros menos, em todo aquele horror, pensar nos interesses políticos que se sobrepuseram de forma cruel sobre qualquer outra coisa, mas sobretudo sobre a dignidade Humana, pensar que tudo poderia ter sido diferente mas que não adianta sequer pensar nisso, pensar naqueles que apesar de tudo ficaram, ou regressaram em tempos difíceis por amor à terra, para tentar ajudá-la a crescer, a prosperar... pensar que também esses teriam tantas estórias para nos contar (seria a meu ver importante ler um relato, um romance que seja, baseado nos factos verídicos vivenciados por quem ficou além do 11 de Novembro) e pensar ainda que eu também tenho um papel a desempenhar... e que o quero desempenhar...

Já tinha gostado do "O tempo dos Amores Perfeitos", mais ainda deste "O Último ano em Luanda", talvez pela maior proximidade temporal e não só...

Deixo-vos a sinopse...


Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. Três movimentos de libertação, cujos exércitos estavam derrotados a 25 de Abril de 1974, estão novamente activos e combatem entre eles pelo poder deixado vazio pelas Forças Armadas portuguesas. É neste cenário de total desorientação social e de insegurança generalizada que Nuno, um aventureiro que há anos atravessa os céus do sertão angolano no seu avião, Regina e o filho de ambos se movem, numa extraordinária luta para sobreviverem à violência diária, às perseguições políticas, às intrigas e traições que fazem de Luanda uma cidade desesperada. Esta é a história de coragem e abnegação de um casal surpreendido, tal como milhares de outros, num processo de degradação que se deve à recusa do Exército em defender os seus próprios compatriotas a favor de um movimento até há pouco inimigo, ao desinteresse dos políticos, à total incapacidade do governo de Lisboa para impor os termos de um acordo assinado no Alvor e constantemente violado em Angola e à intervenção militar das duas potências mundiais envolvidas numa guerra fria que é combatida por intermédio dos exércitos regionais.

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segunda-feira, 17 de março de 2008

Príncipe - Pedro Paixão


Desejei-te ontem, de mais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te noutros corpos, mas só o teu amo de olhos abertos. Amo-te de mais. Dormi agarrada à camisola de que te esqueceste. Ela ainda tem o teu cheiro. Vou guardá-la numa caixa para continuar perfumada. Não te a darei de volta. Não peço o teu amor. De ti não exijo nada. Mas nunca me digas que o amor é impossível. Tu fazes-me viver, sonhar, acordar com pesadelos. Tu és o meu diamante solítário e entre nós não há qualquer contrato. Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Quando te escrevo tu ressuscitas a minha alma. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto, meu príncipe das trevas, lindo. Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja o bastante. É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, eras tu que mo dizias. Eu não concordo. Desculpa-me príncipe, o ter-te acordado hoje tão cedo. Tu sabes que não uso relógio. Só sei se é dia, se é noite. Tu sabes que eu sou uma apaixonada. Perdoa-me. Diz qualquer coisa logo que possas. Sinto saudades, é só. Não existe corpo, não existe face, não existe sexo e existe tudo isso. Só o amor é imortal, acredita.

in Asfixia, Pedro Paixão

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quinta-feira, 26 de julho de 2007

Desafio... Livros



Fui desafiada pelo meu amigo lampejo que podem visitar aqui: http://avoltadafogueira.blogspot.com/ ,a indicar o nome de 5 livros que li. Na dúvida de se se refere aos que mais me marcaram, se aos últimos 5 que li, vou misturar.

Ler é, para mim, um prazer. Leio de tudo, desde o Romance mais delicodoce até à obra literária de maior respeito.

Ah... escusado será dizer que na minha infância li, no mínimo, 20 vezes cada Aventura dos Cinco de Enyd Blyton :), passei pelos 7, mas não me deram tanto prazer...


Sem qualquer ordem de preferência, apenas 5 livros que me deram muito prazer ler:



  • O meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos

  • Cisnes Selvagens - Jung Chang

  • O Principezinho - Antoine de Saint-Exupéry

  • Pássaros Feridos - Colleen McCullough (da mesma autora O Toque de Midas)

  • Os Maias - Eça de Queiróz (ou qualquer outro do mesmo autor, dos que li :) )

Tenho mesmo que parar?? :( Não, né?? Como não vou passar a batata pois não tenho 5 bloguistas a quem passar palavra, permito-me mais alguns:



  • O Tempo dos Amores Perfeitos - Tiago Rebelo

  • O Penúltimo Sonho - Ángela Becerra

  • O Perfume - Patrick Suskind

  • Herdeiros do Ódio - Virgínia Andrews

  • As palavras que nunca te direi - Nicholas Sparks

E na mesinha de cabeceira à espera de dias melhores estão:



  • A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Záfon

  • Os 7 minutos - Irving Wallace

Pronto ... já me calei ...

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Amores Negados - Ángela Becerra

"Minha Amada,

Ouve, é a minha alma que te escreve. Este papel esconde a minha vergonha, mas também será ele que, finalmente, me revelará perante ti. (...)
Sempre tivera medo que desestabilizassem a minha tristeza, acreditava que nela estavam a minha paz e a minha segurança, por isso me conformei, contente, com o que a vida me entregou. (...)

Devo confessar-to. Continuo a ter medo. Mas este é um medo diferente. Fizeste-me ter consciência dos meus vazios; contigo, iniciei uma procura interior que não pára de ferver dentro de mim e para a qual não estou sequer certo de encontrar uma solução. Mas comecei a andar.
Garanto-te que a minha alma é melhor do que eu, porque a pressinto limpa e nova para ti.
Espero que não seja demasiado tarde. Nas minhas tantas noites de insónia, o céu ensinou-me que há um momento em que o muito tarde se pode tornar, para nós, em muito cedo. É apenas um instante que se apaga e acende numa suave centelha; quando a noite agoniza nos braços do primeiro raio de luz nascente. Espero que este seja esse momento.

Minha amada Estrella. Sou casado. Há dezoito anos decidi partilhar a minha vida com uma mulher maravilhosa que julguei amar com loucura. Os nossos dias foram-se congelando entre as neves do silêncio e hoje, com dor, verifiquei que sobrevivi ao frio da nossa relação aquecendo-me nos restos de gestos que restavam dos nossos primeiros anos. Contraí com ela um compromisso de amor eterno que hoje me deixa imobilizado em relação a ti porque, sabes?, nestes dias de reflexão profunda, dei-me conta de que quanto mais fiéis somos a nós próprios, mais infiéis podemos acabar por ser aos outros. (...)
Fui educado na fria contenção, na responsabilidade e no bom comportamento, embora à custa de sacrificar os meus sentimentos mais sensíveis, porque tens que saber, amada Estrella, que a sensibilidade não é uma qualidade que pertence apenas às mulheres. Hoje, confesso-te, não me envergonha verificar que sou um ser sensível. Durante toda a minha vida, os meus sentimentos mais íntimos estiveram a procurar vias de escape para esconder ou libertar as minhas dores e prantos. Graças a ti, nestes dias recuperei, ainda às escondidas, as minhas lágrimas.

Tive um pai que não descansou enquanto não julgou ter castrado a totalidade dos meus sentires, transformando-me num homem de bem - um verdadeiro orgulho para a sua masculinidade - fazendo-me um infeliz. Não o culpo; à sua maneira, pensava que me estava a dar o melhor que tinha. No funso, somos todos o produto das educações recebidas pelos nossos antepassados, e a mim coube-me como herança a contenção do meu sentir.
Durante anos, vivi seco; sedento de vida e seiva que, compreendo agora, só podem sorver-se sentindo a vida com plenitude, lutando por satisfazer os desejos. Isto, que parece simples, ignorava-o até que te conheci.
(...)

Deste-me asas e alegria; vontade de rir e chorar. Provocaste um renascimento que fez florir os meus dias vazios. Agora, quero aprender tantas coisas, só pata tas ensinar... analiso os pores do sol e as fases lunares. recolho as folhas caídas das árvores e observo a perfeição da sua estrutura. Descubro o voo das gaivotas e o canto dos estorninhos. Volto a contemplar o mar com olhos novos.

Tudo me parece fácil. Qualquer coisa que faça, por mais banal que seja, dá-me prazer. Entrei num estado de consciência surpreendente. (...) Se tivesse de me definir numa palavra, diria: efervescente. Sim, é assim que me sinto desde que te conheci.
Ajudaste a simplificar a minha alma. Tudo o que me deste fez o meu coração transbordar de prazer. Fizeste-me sentir uma fadiga de amor desconhecida. Devo parecer-te um homem estranho, dado que não procurei em ti o teu corpo, embora tenhas sentido bem a loucura que a tua presença provoca na minha pele. Existe tanta sensualidade em cada poro do teu ser, que me acorrentei ao teu corpo sem ainda me ter esvaziado nele.

(...) O meu coração e a minha razão não se pôem de acordo. (...) quando regresso ao quotidiano e à rotina dos meus dias, levantam-se como muros todos os meus impedimentos. Olho para a minha mulher e sei que ela não teve culpa das minhas frustrações, mas assim como contigo me sinto fluído, com ela ainda não posso abordar as minhas verdades. Sei que um dia esses muros acabarão por desmoronar. Só te peço tempo e fé, poderás dar-mos?

Minha amada criança. Nestes longos dias de espesso silêncio, os teus olhos guiaram-me com a sua luz, iluminando as minhas trevas. A tua sombra, colada ao meu corpo, acompanhou os meus suores. Não deixei de estar em ti um único instante. Penso que do mais dissonante silêncio pode brotar a música mais bela. Sinto que esta separação me fez tomar plena consciência do que pode ser querer ou amar. No querer há ânsias e desejos. No amar, apenas o desejo do bem à pessoa amada.

Agora já sei que, se não te tivesse, continuaria a amar-te. Porque o amor não pode ser posse. verifiquei-o ao ter-te sem te ter. Acima de tudo, quero que saibas que te amo, assim, sem mais nada. Mas, como simples mortal, também quero que saibas que te desejo com toda a minha alma.
Tiraste-me o medo de viver. Não sei o que nos espera, mas sinto que contigo vou começar de novo uma caminhada mais plena e intensa. Agora já sei que tenho uma alma. Tu revelaste-a perante os meus olhos; reconhecendo a tua, descobri a minha.
(...) Vem, aproxima-te mais para te tocar a alma. (...)

domingo, 8 de abril de 2007

O penúltimo sonho ...


"Encontro-me num silêncio doloroso.
As horas pesam-me mais do que a minha alma pode suportar. Porque não me respondes?
(…)
Perdi-me. Sem ti já não me reconheço. Como é possível que o amor nos faça e desfaça a seu bel-talante? Como é possível ficar em cinzas, sem acabar de arder? Por vezes, sinto medo de não poder continuar. Se ao menos me enviasses uma única palavra. Se me dissesses: «Não me fui embora, estou contigo.»
O teu rosto passeia-se pelas minhas noites cansadas; sinto-o flutuar entre as minhas pálpebras sem olhos.
Que dedo me apontou para ser eu o escolhido por este amor impossível?
Sinto-me mais longe de mim do que de ti. Vagueio por esta ausência tua com o meu corpo vazio e, quando penso que não existo, os meus olhos morrem de sede…
Quanto desejo voltar a ver-te.
Esta saudade é como um lodo espesso que me sufoca. Já não sei se vivia antes de ti, ou se comecei a morrer mal te vi.
O viver e o morrer juntam-se, num único acto.
(…)
Ainda continuas a pensar que um dia voltaremos a estar juntos?
Diz-me que sim. Que ainda pensas que viveremos juntos até mais além do penúltimo sonho …"

Excerto de "O Penúltimo Sonho" Ângela Becerra,
Prémio Azorín 2005

Um dos Romances mais envolventes que já li. Se lhe juntarmos Chopin com "Tristesse" ... sem palavras! Leiam e depois digam-me ...

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