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domingo, 10 de agosto de 2008

Coração de ouro


(...) Ninguém tinha levado uma flor sequer para a minha professora D. Cecília Paim. Devia ser porque ela era feia. Se ela não tivesse uma pintinha no olho, não era tão feia. Mas era a única que dava um tostão pra mim pra comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.
Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. Só o copo da minha continuava vazio.

(...)

A escola. A flor. A flor. A escola...

Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou pra flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zézé. Espere um pouco.
(...)

- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zézé. É verdade?
(...)
- Da flor? É sim, senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que não faz falta.
- Sim. mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso.
(...)
Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro... E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?...
- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some...
- Eu não podia aceitar todos os dias...
- Porquê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A senhora não vê a Corujinha?
-Quem é a Corujinha?
- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
-Sei, a Dorotília.
- É sim senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu e as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Eu divido o sonho que a senhora me dá com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo o sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido meu sonho porque mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
- Não é isso Zézé. Venha cá.
Pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zézé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Pra mim você tem. de agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma, você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro...


in O Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos

Sonhos doces podem ser também o querer acreditar que esta doçura, ternura e pureza podem existir sempre... e eu sou uma sonhadora!!!


E para quem está com dificuldade em chorar para libertar muito do que vai dentro de si... um bom conselho, este livro... chora-se da primeira à última página e repete-se vezes sem conta ao longo dos anos...

... eu diria... é de ler e chorar por mais... tanto ou mais, só mesmo vendo o filme "O campeão" - Minha nossa!!

Eu também vejo SEMPRE a minha flor... ela está lá...

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terça-feira, 29 de julho de 2008

De pacanina...


... em Trás-os-Montes, acabada de chegar do Brasil, imunda como só as crianças sabem ficar... e um olhar que me parece meio perdido nesta foto... será? Não lembro...

Mas foi assim que senti hoje, ao olhar esta foto e ao olhar o espelho e a imagem nele reflectida...

Ingenuidade, genuinidade... será que há diferença no significado... penso que sim...

Será que alguma destas características, que tanto podem ser uma qualidade como um grave defeito, podem servir de justificação para os nossos erros, para a nossa insegurança, para a nossa impaciência, ou melhor ... ansiedade!? Penso que não...

E como viver e conviver com isto?

Porque é que um dia acordamos confiantes, de alma cheia, com vontade de viver a vida e o que de bom ela nos trás, naquilo que aceitamos como sendo o que nos faz felizes independentemente das circunstãncias - achamos que temos tudo na mão, mesmo que nada alcancemos, porque... "há palavras que nos beijam"... Vivemos intensamente e degustamos demoradamente estes momentos, apurando todos os sentidos ao máximo... só porque é assim, porque há amores assim, porque nos aceitamos assim, porque nos sentimos no céu... Vivemos de saudades do futuro, de esperança...

... e porque haverá outros em que, sem razão aparente ou aparentemente sem razão, tudo se desmorona, as certezas se esvaiem no espaço e no tempo e as incertezas se intensificam, a realidade é cruel e a tomada de consciência dói e fere de uma forma que nos tinhamos prometido não aconteceria... realizamos o lugar que ocupamos, o que na realidade representamos... aquilo a que nos votamos... e choramos desalmadamente e... aparentemente sem razão... e percebemos que não controlamos o futuro e a esperança esmorece, mas não morre... nunquinha!!

Depressão? Não tenho tempo nem vocação costumo dizer... mas o que não mata, mói... and I'm only human!!

Todas as nossas reacções, são condicionadas pela sensibilidade do momento, e estas, por sua vez, condicionadas por tudo o que nos envolve, somos fruto da sociedade em que vivemos, do meio em que estamos inseridos e é por tudo isso e que apesar de tudo... pretendo manter a minha ingenuidade e a minha genuinidade...

... sabem lá a que preço!

************************

De repente, vi-me menina, na Escola Primária - Ângulo Recto, na Amadora. Não era mais que um apartamento de 3 assoalhadas num prédio da principal Rua da Cidade. Uma sala de aulas e duas outras salas onde funcionavam os recreios, naquela altura, meninas de um lado, meninos de outro - o único ano em que tal me aconteceu, estavamos em 1981... Era já noite e eu era a última menina na escola, à porta, com uma "contina" (nem sei se é assim que se escreve), hoje temos o nome pomposo de auxiliares da acção educativa. A minha casa ficava pertinho, mas aquela rua imensa e cheia de trânsito parecia-me assustadora do alto dos meus 6 aninhos. As lágrimas assomavam-me aos olhos, será que se esqueceram de me vir buscar?? Poderá alguém perceber o drama vivido na altura, interiormente claro...

Como não podia mais esperar, e já não me lembro como a "contina" me deixou ir... saí da escola em direcção a casa. Empinei o meu nariz, como sempre nos momentos difíceis, e caminhei corajosa e decididamente rua a fora... Como estratégia, juntei os meus passos aos de outras pessoas apressadas por chegar a casa no final de mais um dia de trabalho, atravessei aquela estrada assustadora, na passadeira e junto a mais algumas pessoas. Por momentos apeteceu-me começar a correr sem parar, ou melhor, parar apenas em casa. nem olhei para a padaria dos meus bolos preferidos com as suas bancadas de mármore... cheguei a casa... sã e salva...

... afinal não se haviam esquecido de mim, apenas um malentendido entre a mãe e a avó que pensavam que uma e outra me iam buscar...

... afinal ainda gostavam de mim...

[perdoa se te faço mal...]

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terça-feira, 3 de junho de 2008

Se...


Se o Sol não nascesse
e aquela árvore não crescesse,
se a maré não enchesse
e o mundo não girasse
Se os pássaros não cantassem
ou se os cães hibernassem
se os ricos fossem pobres
e o inverso também fosse verdadeiro
Se os Nobres não mais fossem Nobres
E os milionários dessem todo o seu dinheiro,
Se o Homem fosse Imortal
ou pacifico ou ecologista
Toda a vida seria caricatural
Tudo estaria errado
Algo, no Universo estaria trocado...

Mas há aquela verdade Absoluta
Aquela característica imutável
que nem com mais ou menos luta
Seria de todo alterável:
TU existes......
E mais importante ainda...
estás lá quando é preciso...
e és preciso......
SEMPRE!!

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Livro de autógrafos... e afins


Quem, das meninas pelo menos, não teve um, ou vários, livros de autógrafos. Pois eu TIVE - acho o máximo hoje pegar neles e rir, relembrar, reviver. Ler e dizer - olha, esta escrevia sempre a mesma coisa - era chapa fosse para quem fosse. Percebe-se tão bem numa dedicatória o que ela de facto quer dizer... Ou então ler e pensar - esta pessoa é tão especial!!

Enfim, tudo isto porque reencontrei um amigo dos tempos de liceu - o Renato!! O Renato era o meu "mano", das alturas em que eu ainda gostava de cervejas e as bolas de berlim sabiam a bolas de berlim e ainda não existia a internet - dos tempos em que dançávamos no pátio do Liceu o "Sweet Child of Mine" dos Guns 'n Roses, como se fosse a melhor "Balada" de sempre, da altura em que ele queria bater ao meu "namorado" por ter acabado comigo :D

Enfim...

Curiosamente acho que não tenho uma única dedicatória do Renato - acho que nos dizíamos tudo :) Mas não tinha só livros de autógrafos. Quando tinha algo muito importante , para mim, a dizer a alguém, se não tinha a oportunidade de o fazer verbalmente, escrevia cartas - ainda não havia internet, e hoje, remexendo nos livros de autógrafos, encontrei duas cartas resposta - pena que não tenho as que escrevi :)

Vou aqui transcrever umas partes - para percebermos como somos aos 33 anos, o que somos aos 16 anos - versão upgrade, claro. E que, não obstante, continuamos a ter tantos defeitos... afinal... somos apenas Humanos!!

"(...) Achei-te muito interessante e com um "feeling" que poucas raparigas têm. Adorei o facto de me teres ajeitado o cachecol só por ter dito que estava doente (...) mas queria que soubesses que no fundo, bem no fundo do coração guardo um pouco de saudade de te ver (...) vi que nos teus olhos existe muita fascinação, encanto, esperança (...)

(...) Antes que me esqueça gostava de dizer-te que são poucas aquelas que podem desfrutar de serem chamadas um nome tão bonito quanto o teu "NATACHA" (...)

(...)Estou a escrever-te para te dizer que gostei muito da tua carta somente por uma coisa, a tua sinceridade que acho muito linda e dificíl de encontrar nos dias que decorrem. Gostava também de te dizer que temos o que somos e que é nos grandes sacrifícios que estão as grandes oportunidades, espero que me percebas como eu te percebi. (...)

Marco Melo/1992


Agora - pena é que não faço ideia de quem seja este cara-pálida :( e isso aborrece-me!! Mas uma coisa sei - este rapazinho não podia ter 16 anos - nenhum rapaz de 16 anos fala assim - né!?

Este será um tema a voltar à cena...

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quarta-feira, 12 de março de 2008

Cuba

Na parede que está mesmo por detrás daqui de onde escrevo, encontra-se esta tela que trouxe comigo da minha viagem a Cuba em 2002.

CUBA - Eu poderia fazer este post sobre variadissímas perspectivas, a das praias paradisíacas de Varadero com os seus complexos hoteleiros, e poderia mostrar-vos fotos representativas disso mesmo, onde os cubanos podem apenas trabalhar e isso nos levaria à perspectiva da pobreza desconcertante do povo e a questões políticas que de facto não me apetece abordar, poderia muito bem documentar em fotos esta pobreza, mas também não me apetece.
A contraditória beleza de La Habana, onde se respira anos 50 - só sentindo para explicar, um misto de deslumbramento e tristeza pelo que vi e que poderia talvez transformar numa palavra que me ficou de uma plaquinha toponómica numa ruazinha de La Habana vieja - "Amargura".
Sim, Varadero tem praias espectaculares com areias brancas de farinha e águas quentes - lindas, procurem em qualquer folheto turístico e poderão aferir.
Mas do que vou falar é do que mais me marcou e ficou na memória, para além desta amargura que só se sente e não se explica. E essas as documentarei com as seguintes fotos:

Em Havana, onde apenas fui numa visita de um dia, para a próxima serão mais certamente, e onde logo à saída do autocarro fomos abordados por inúmeras crianças que disfarçadamente, porque é proibido mendigar, nos pediam as mais variadas coisas. Pensar que aquelas crianças poderiam ser presas se nós lhes dessemos o que quer que fosse gerou em mim mais um misto de sentires que não haveria de passar. Entre a vontade de satisfazer uma criança e lhe ver um sorriso e o que isso poderia significar efectivamente...
Bom, mais à frente, bem à frente do Capitólio, havia vários destes senhores que por 1€ se ofereciam para nos tirar uma foto com o Capitólio por fundo - fantástico! Lá nos sentámos nas escadas, incrédulos como podería aquela foto resultar. Mas resultou. Esta máquina fabulosa que se vê tirou uma foto nossa, depois foi colocada por cima da nossa uma foto do Capitólio e foi tirada uma nova foto com a composição ... a isto se chama fotomontagem! Achei o máximo e só não mostro o resultado porque não estou sózinha na foto.

Aqui já estamos num dos sítios mais fascinantes em que já alguma vez estive: La Bodeguita Del Medio, famosa por ter sido frequentada por Ernest Hemingway e onde se podem beber os famosos Mojitos que vemos ali a ser preparados. Como é óbvio o sítio faz-se pagar bem por aquilo que representa, mas dá-se por bem empregue!

Ali, naquele sítio apinhado de gente, somos transportados, aliás como em toda a Havana, aos anos 40/50 ... quadros por todas as paredes e rabiscos e assinaturas de todas as pessoas que por lá passam e queiram deixar uma mensagem ou simplesmente uma assinatura, claro que a minha também já lá consta... Magia, acho que se respira magia ali...

Desta viagem a Cuba fica-me a amargura, claro, de quem não consegue viver indiferente mas que tem circunstancialmente de se alhear para poder viver a experiência.
Ficam-me as praias e suas águas quentes, ficam-me as crianças e os seus sorrisos, ficam-me os Mojitos e Daiquiris, ficam-me as imagens que as palavras jamais poderão reportar e fica-me ainda esta situação:

De volta, no aeroporto e na altura de fazer o check-in, pedímos o especial favor de nos darem os lugares perto das portas de emergência por serem mais espaçosos. O jovem sorriu e disse para depois aguardarmos na salinha de espera que iria lá alguém ter connosco. Assim foi, sentaram-se dois cubanos à nossa frente com outros talões de embarque e dizendo: "los mejores lugares", como quem diz, troca por troca com nota à mistura - não evitámos o sorriso apesar do significado daquilo que pudemos observar... Que, tal como nós, muitos outros houve com "los mejores lugares" ...

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terça-feira, 4 de março de 2008

João


Não sei porque me lembrei agora do João...

O João era um amigo, vizinho e às vezes "namorado" dos tempos que eu morava na Amadora... o 2º portanto... namorado.
Eramos essencialmente muito cúmplices, os melhores amigos como gostávamos de dizer quando as coisas do amor não se nos baralhavam... Na verdade ele era apaixonado, irremediávelmente, pela minha melhor amiga, a Lete... que não lhe passava cartão... até um dia...
Eu acho que me fazia bem acreditar ser apaixonada por ele, ele protegia-me, era só 4 aninhos mais velho, o que naquela altura era significativo pois era a diferença entre ter 14 e 18 anos...
Pensando hoje ainda não se percebe, acho também que ele gostava de me ter como apaixonada, possívelmente isso alimentava-lhe o ego, não me escondia o seu amor pela Lete, pedia-me ajuda, eu percebia, fazia o que podia, ouvia... ouvia... ouvia...
Até que ele um dia se cansou da Lete, ou dos foras dela, e começámos a namorar... eu não tinha ilusões... Porque, vá-se lá entender as mulheres, o que é facto é que isto despertou na Lete o interesse pelo João. Ou seja, da mesma forma que o João adorava ser adorado por mim, a Lete adorava ser adorada pelo João e quando as coisas mudaram sentiram-se perdidos. Sim, porque também fiz o meu papel de desinteressada...
Bom, conclusão... no dia de eu sair definitivamente da Amadora deixei a mão do João na mão da Lete, na firme convicção de que eles acabariam por ficar juntos e para isso eu ia torcer... ao longe! As últimas palavras que lhe ouvi foram: "Adoro o teu sorriso!" - 1989...

Mudei para Setúbal... durante algum tempo o João ainda me telefonou para desabafar, para chorar, às vezes sóbrio, outras nem tanto... quantas vezes isto tinha acontecido em presença, quanto colo lhe dei com o coração nas mãos ouvindo-o lamentar o seu amor pela Lete, a mim, logo a mim que gostava dele...
Da Lete não mais soube...

Passaram-se anos e em 2003 recebo um telefonema no trabalho, uma voz de Homem, que me pediu se podia sair durante 10 minutos e ir até ao café. Perguntei quem era: "O João- da Amadora" - explicar o que senti não é possível - é como se de repente voltassemos atrás num tempo. O encontro foi qualquer coisa de espectacular, ao mesmo tempo parecia que ainda ontem nos tínhamos visto, eu agora com 29 e ele com 33, eu grávida e ele já com um filhote de 2 aninhos.
Curioso o que ele tinha para me dizer passados todos estes 13 anos desde aquela despedida à janela...
"Desculpa Natacha!" Fiquei baralhada... confesso. "Desculpa por tudo", foi o que ele voltou a dizer. Sorri-lhe. Será que ele não compreendia que não havia o que desculpar? Será que é assim tão difícil compreender que quando aceitamos determinadas regras de jogo e entramos nele estamos a assumir a despesa? "Não tenho nada para te desculpar, vivemos tempos tão bonitos de cumplicidade, disse-lhe eu. Eu gosto de recordar esses tempos e sou feliz quando os recordo, nada recordo com mágoa." "Tu eras uma menina" ... a minha resposta foi simplesmente, "e tu eras um menino apesar dos teus 18 anos, nada mais que um menino" Rimo-nos, falámos das nossas novas vidas e acabou o tempo, eu tinha de voltar...

Voltámos a falar uma ou duas vezes até que o João "desapareceu" do mapa again. Não faz mal, aguardo mais 13 anos se for preciso, as amizades como os amores, ou os dois em conjunto, vivem pacificamente em mim...

Não consigo deixar se ser eu, assim ... por muito que às vezes me custe...

Ah... vim a saber que o João e a Lete ainda namoraram durante bastante tempo, tiveram até os convites para o casamento escolhidos, but... não chegou a acontecer...

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Músicas da minha vida - PARTE II


Cá estou eu de novo... :)

Começo por esclarecer uma coisa. Alguns pensarão o que fazia da vida esta criança para gostar destas músicas. Bom, acontece que para além da herança familiar, gostos dos pais, também tenho um irmão mais velho que ainda por cima trabalhava, muito jovem, numa rádio da Amadora... Rádio Horizonte (parece que ainda me lembro do spot :)) portanto ouvia-se de tudo naquela casa...

Despois de esclarecido este ponto uma referência especial aqui para uma música que me veio à cabeça há já uns dias e que ouvia já no Liceu, fins dos anos 80 e que procuro procuro, mas não encontro e ... ADORAVA!!
Essa música é: Caixinha de Música e quem cantava eram os Peace Makers. Tinha um refrão que jamais me saíu da cabeça: "João, mais uma vítima nuclear, numa casa no meio da cidade, onde só se contavam histórias de bem e de mal..."

Alguém se lembra disto??

Falei maioritáriamente de grupos portugueses, e ainda me faltou:

Rui Veloso: Chico Fininho, Um café e um Bagaço...

Xutos e Pontapés: Contentores, Casinha...

Delfins: Nasce Selvagem, Baía de Cascais...

GNR: Efectivamente, Ana Lee, Pronúncia do norte, Dunas


Bom, mas o que estava na moda na senda Internacional, ou pelo menos o que eu ouvia: Duran Duran, Culture Club, Nick Kershaw, Spandaut Ballet, Wham; Alphaville, A-ha, Eurithmics, Pink Floyd, Scorpions, Queen, U2, Europe, Century, REO Speedwagon, os brasileiros Roupa Nova, como se pode ver uma diversidade de géneros e eu gostava deles todos! Um pouquinho mais tarde: The Cure, Depeche Mode, Transvision Vamp, Gun's n' Roses, Bon Jovi... e tantos outros...


O meu lado romântico que ouvia noites dentro o "Oceano Pacífico" da RFM ou o "Cidade by night" da Rádio Cidade relembra com carinho: Brian Adams: Summer of 69; Peter Cetera: Glory of Love; Bonnie Bianco e Pierre Cosso: Stay; Elton John: Nikita; Phil Collins: Against all Odds; Mike Oldfield: Moonlight Shadow; Madonna: La Isla Bonita, REM: The one I love; The Housemartins: Caravan of Love; Tracy Chapman: Baby can I hold you... and so on, and so on...

Quando chegou a altura de experimentar as matinés da discoteca o que tocava era: Invariávelmente a pista abria com Cher: If I could turn back time, ou com os The Hooters: Karla with a K (como gosto desta música)... seguiam-se então: Soft Cell: Tainted Love; U2: Sunday bloody sunday; The Cure: Just like heaven; Depeche Mode: Somebody (para um momento mais calmo cheek to cheek) ou Enjoy the Silence, e a histeria quando começávamos a ouvir os primeiros acordes de Clash: Should I stay or should I go ... meu Deus... quase que me vejo lá novamente :D


Sei que fugi completamente ao espiríto da "coisa", abusei, fartei-me de falar... mas era, de todo, impossível fazer uma escolha... e ainda ficaram taaantaaaas músicas por falar!! Não prometo de que não volte a este assunto :D


PS... Por Amor de DEUS!! Glenn Medeiros, Rick Astley, Bros ... Jason Donovan ... estes eram assim aqueles pimba da época :$

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Músicas da minha vida - PARTE I


Bom, aqui está aquilo que eu considero um verdadeiro desafio!! Na verdade, o João desafia-me para as músicas da minha infância, mas eu vou considerar que estamos a falar daquela infância que se vive até entrarmos na idade adulta :)

E vou ter de dividir por categorias e épocas... não vai ser fácil não!! Para mim, que não vivo sem música, e que gosto dos mais variados tipos e influências desde que de música, na verdadeira acepção da palavra, se trate. Sim, também tive as minhas travadinhas com aqueles grupos "boysband"... but...

Comecemos então... coragem ;)

Consta que a míuda delirava, com os seus parcos 12 mesinhos, mais coisa menos coisa, e a viver no Brasil, com o Roberto Leal... passemos então à fase seguinte... :D A fase seguinte incluí "Maria Armanda" "A turma do Balão Mágico" "Ana Faria e os queijinhos frescos", e um grupo de míudos portugueses que agora não se me ocorre o nome :S (editarei assim que me lembrar) [edito: Ministars]

Para além da música que me era "oferecida" pela rádio, e eu adorava ouvir "quando o telefone toca"(Já aqui falei de como me tocava ouvir Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, mas também Vitorino e outros...), tinha também as próprias escolhas dos meus pais,e assim por influência, e ainda bem, cresci na companhia de Paul Simon e Art Garfunkel no Central Park, um memorável concerto e LP duplo que ainda hoje faz as minhas delícias e em que destaca uma música é completamentente impossível.

Quem não cantou "Hello darkness my old friend/ I've come to talk with you again" (The sounds of silence), ou "I am just a poor boy, though my story's seldom told..." (The Boxer) e ainda o "Wake up little Susie, wake up..." (Wake up little Susie), para não falar em Mr. Robinson :D
Tinha também um LP de Paul Simon já a solo com o "You can call me all"...

Outro LP que me acompanhou foi o, também duplo, Maria Bethânia e Chico Buarque ao vivo. Excelente! Daqui destaco... Todas!! :S É impossível, sorry...

Mas também Frank Sinatra, The Beatles, Elvis Presley, Elis Regina, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Duo Ouro Negro ... os êxitos dos 60's e os do momento.
Como criança que era na altura não podia ficar indiferente a Carlos Paião: Pó de Arroz, Cinderela, Vinho do Porto, Play-back... recordo a tristeza que senti no dia da sua morte :( Quem não conhece o Carlos Paião não via também o Topo Gigio e quase que me apetece dizer que nem merecia viver :D

António Variações- Canção do Engate; O corpo é que paga; Estou além, É pr'amanhã...
UHF- Cavalos de corridas; Rua do Carmo,
Taxi- Chiclet
Grupo de Baile- Patchouli
Já fumega- Latin'América, tá quetinho ou lebas nu fucinho
Heróis do Mar - Paixão, Supersticioso, Amor...

Lena d'Água- Robot, Sempre que o amor me quiser...

Trabalhadores do comércio- Chamem a polícia

Jorge Palma- Taaantaaassssssss (depois ponho aqui algumas, agora num dá:D)

Tenho de parar??? Ok... :( mas contrariada!! HUMPF!!

Fico-me agora por aqui que o post já vai longo ... mas volto!!

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Namorados



Ela tinha apenas 9 anos, ele era mais velho, tinha 10.

Alvide, Cascais... era o local onde ele vivia e onde ela passava quase todos os fins de semana e férias, em casa da tia e onde tinha a companhia da prima, 4 anos mais nova e muito cumplíce.
Ela andava na quarta classe quando tudo começou. Brincavam imenso e conversavam muito, ela sempre gostou de conversar. Jogavam à macaca e às escondidas, andavam de bicicleta... só perceberam o que sentiam um pelo outro quando um amigo passou por eles e disse... "olha os namorados"... olharam-se timidamente e sorriram, ela corou...
Devem ter passado anos. Entre eles foram trocados beijos escondidos e envergonhados de "biquinho" como na foto, precisamente! Ele defendia-a sempre e ela muito orgulhosa do seu protector a quem até já permitia um braço por cima do seu ombro :)
Um dia, ela teria os seus 12/13 anos, estava a jogar às cartas num quintal, em Alvide, com os amigos, quando, o mesmo amigo que tinha anos atrás sugerido que eles eram namorados, insinua que ele gostaria de outro alguém, uma colega de escola...

... Ela sorriu e nada disse... esperou por ele.

Quando ele chegou e quando apenas na companhia da prima, que brincava por ali, ela confrontou-o calmamente com a situação. Ele desviou o olhar, ela ficou triste...

Tinha 13 anos e a primeira desilusão de amor! Mas derrepente parou e pensou... e quando voltou da pequenina viagem ao interior de si olhou-o, beijou-o uma última vez, o mesmo beijo de encostar lábio com lábio, e disse-lhe... "pelos vistos acabou", e dizendo isto sorriu-lhe...
Ele pareceu ter ficado algo baralhado, mas ao notar nela serenidade (naquela altura ainda não percebiam que era serenidade), sorriu também e respondeu: "Parece que sim..."

Na ressaca do acontecimento ela realizou que se sentia aliviada, livre e Feliz de ter tido um amor bonito e tanto ainda para viver...

Ela chamava-se Natacha, ele chamava-se Nuno... o 1º namorado! Ela ainda se lembra do seu nome completo e da data de nascimento, 16 de Agosto, o mesmo dia da morte do Elvis ...


Ele entretanto mudou de casa e deixaram de se ver. Encontrou-o em Cascais no ano de 1993, no Verão perto dos Bombeiros onde ele era Voluntário. Ela chamou-o e conversaram ainda um pouquinho, rindo do que haviam vivido e falando do que viveram depois... Foi a última vez que se encontraram...


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Hoje, dia dos namorados, queria lembrar o Nuno e dizer-lhe que jamais esqueço um amor, o amor não acaba nunca. Pode transformar-se noutra "coisa" mas não acaba... ou não é amor...
Guardo todos os meus amores no meu coração, lembro a todos com carinho, os que me fizeram sofrer e os que não fizeram, todos, mas todos, estão no meu coração... todos ajudaram a "construir" a Natacha que sou hoje...

E no meu coração ainda há espaço... mas está reservado...


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terça-feira, 13 de novembro de 2007

A noite chegou ...


... e com ela a calma crescente de mais um dia de trabalho chegado ao fim ...

A mente orienta o pensamento para ti, novamente. Tu existes!
Olho à minha volta ... sinto ainda o teu cheiro ...
No cinzeiro a limpeza dos cigarros que não fumaste, no copo o vazio do whisky que não bebeste ...
Ainda oiço os pingos que caem do chuveiro, daquele duche que acabaste de não tomar ...

Lá fora, a Lua alta testemunha a lágrima que rola da minha face ... por tudo aquilo que escrevi, mas não vivi ...
E sózinha, mais uma vez ... vou-me deitar!
Vou dormir o sonho de não acordar e te ter perto de mim ...

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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Avós...


Hoje apetece-me falar de avós. Já aqui falei muito particularmente da minha avó paterna que foi a que sempre esteve mais próxima de nós (geográficamente falando). Mas os outros 3 também são, para mim, muito importantes, sendo que dois deles, os avôs, já faleceram.
O motivo que me leva hoje a falar dos avós não é de facto o mais feliz. Tenho a minha avó Maria (quem não tem uma avó Maria?), avó materna, e que neste momento se encontra na casa dos meus pais, com uma infecção respiratória :( ... Ora, se pensarmos que a jovem tem 84 anos ... não é animador. Por outro lado ela é uma mulher de força e coragem e por isso, vamos acreditar! Mas vamos lá falar um pouquinho de avós.

O meu avô Daniel, avô paterno.

Eu não conheci o meu avô Daniel, embora ele me tenha conhecido, a ele devo o facto de ter nascido em Angola, pois foi ele que partiu de Trás-os-Montes no início dos anos 50. Foi trabalhar para a construção, mas com o passar dos anos virou camionista e percorreu aquela terra com os seus camiões. O meu avô está sepultado no Huambo/Angola, no cemitério do Bairro S. Pedro. faleceu quando eu tinha 2 meses. Conta a minha avó que ele brincava comigo e dizia "Olha a lêndea o que tem os olhos de arregalados" ...
Um dia, em Junho de 1975, depois de assistir a um jogo de futebol do Recreativo da Cáala, clube do qual era sócio, foi atropelado por uma motorizada, tendo batido com a cabeça no chão, veio a falecer no Hospital Central... 42 anos de idade. Tenho num sentimento especial por este avô que não conheci! Um dia vou colocar uma flor na sua campa ...

O meu avô Arlindo, avô materno.

Como eu gostava do meu avô! Como gostava em pequena de o ir ajudar na Praça, onde ele vendia frutas, hortaliças, ovos e afins. Carregar e descarregar a carrinha, atender os clientes e mais ... ele até me deixava fazer os trocos e pesar, sempre comigo debaixo de olho ... Por vezes até chegava a ir com ele às hortas e apanhar a mercadoria directamente ... eu adorava aquilo... andava na primária, mas sempre que podia lá ia eu com ele, a cantar, sempre a cantar eu...
E depois, quando iamos à terra, iamos plantar batatas, iamos cavar, apanhar ... tanta coisa que eu gostava. Este contacto com a terra e o trabalho. Acho que já vem daí o meu gosto pelo trabalho, ser útil, ver alguma coisa a acontecer pela nossa mão ... e o meu gosto pela natureza, o contacto, não só com a terra, mas também com os animais ... Bons tempos. Depois de ter visto uma perna amputada, nunca mais foi o mesmo. Não estava habituado a uma vida sedentária, deixou de poder cuidar da sua fazenda, da sua vinha, perdeu alegria ... faleceu com 84 anos.

A minha avó Leopoldina, avó paterna.

A minha avó tem 86 anos. às vezes até me esqueço porque ela está impecável. Claro que as forças já não são as mesmas, e, para além de um problema no olho que foi tratado no IPO de Lisboa, onde ainda é consultada, graças a Deus a saúde tem-na preservado. Esta foi avó que vivia conosco e depois teve que ir ajudar a minha tia, passando a viver com ela, andava eu também na primária. Devido a tamanha proximidade, esta também foi a avó com quem tive mais conflitos, mas também mais cumplicidade ... sem dúvida!
Ainda hoje vive com a minha tia.

A minha avó Maria, avó materna.

A razão da minha actual preocupação. A minha avó Maria tem 84 anos, como já disse. Desde que o meu avô faleceu, em 2001, quis sempre ficar na sua casa na terra. Mas há medida que os anos avançam lá se foi convencendo em passar algumas temporadas na casa das filhas e/ou netos. Tinha estado no Norte em casa da filha mais velha, mas sempre regressa à terra por altura dos finados. Essa é a altura em que a minha mãe a vai buscar para ela depois vir para aqui e passar o Natal. Desta vez a minha mãe não a encontrou de muito boa saúde. Apanhou gripe, não foi ao médico e o resultado foi este. Infecção respiratória... vamos aguardar e ter esperança. Está medicada, acompanhada e, sobretudo, é uma mulher de força!


Como gosto de todos os meus avós!! Obrigada SEMPRE por tudo!

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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Guerra e Música ... coisas que marcam

Era ontem...

Era ontem que eu queria aqui ter voltado. Apesar de eu não utilizar muito este Blog para falar de questões do Mundo, sempre que estas dizem directamente algo ao meu sentir, procuro referenciar. Aliado às minhas memórias mais longínquas também está este Homem e esta música...
Fez ontem 25 anos que morreu Adriano Correia de Oliveira, com 40 anos. Não farei aqui a sua Biografia, isso farão muito melhor os jornalistas ou estudiosos destas matérias, e recuso-me também a fazer um copy/paste de algo que alguém escreveu.

O que eu recordo:

Teria uns 5/6 anos, já na Amadora, naquele "magnifíco" apartamento de duas assoalhadas na Rua principal, Elias Garcia nº 77 1º Fte, bem pertinho da Sociedade Filarmónica Recreio Artístico da Amadora... onde dividi com o meu irmão, 4 anos mais velho, uma sala que era um quarto e onde ficámos até 1989, eu com 14, ele com 18...
Bem, mas voltando ao assunto que já estou a divagar...
Uma das coisas que eu adorava era refugiar-me no quarto dos meus pais e ouvir no rádio-cassete de mesinha de cabeceira o programa "Quando o telefone toca" e depois repetir a frase com o ouvinte que ligava... penso que era a Rádio Comercial, mas não tenho a certeza...
E era aqui que tocava bastante Adriano Correia de Oliveira e "A trova do vento que passa". Longe das questões políticas, ainda hoje, aquela música deixava-me de lágrima no olho, algo me dizia que aquilo tinha um pouco a ver com a minha/nossa história.

"Pergunto ao vento que passa/notícias do meu país/e o vento cala a desgraça/o vento nada me diz"

Por isso, por isto, pelo que me fez/faz sentir ainda hoje, aqui a minha homenagem a este Homem.

Outra das músicas que não só me deixavam de lágrima no olho, mas sim com elas a correr cara abaixo era a "Menina dos olhos tristes" de Zeca Afonso [seria Zeca ou também Adriano??]

"Menina dos olhos tristes/o que tanto a faz chorar/o soldadinho não volta/do outro lado do mar"

Aproveitando o facto de ter escrito este post, sem pensar, ao correr da pena, como gosto, justifico não tê-lo feito ontem pelo seguinte:

Deu, ontem às 21H na RTP1, um programa sobre a Guerra Colonial, e dará mais episódios, ao que julgo saber sempre à terça-feira. Estive a ver, obriguei-me a ver até ao fim, se bem que a meio estive para desistir. Mas, como disse, obriguei-me a ver. Não posso deixar que a sensibilidade me afaste da realidade, terá chegado a hora de lidar com algo de que sempre fugi... a Guerra. Falar dela, simplesmente, algo que me deixa de rastos. Ver este programa saíu-me caro, uma noite mal dormida...

Ainda vai ter que nascer alguém que me consiga explicar as "razões" da Guerra. E não me contento com qualquer resposta, recuso-me a aceitar um simples "a rebelião dos povos pela libertação"... Não me convence, terão que fazer melhor!

Aquilo que ouvi, e aquilo que vi não se justifica com NADA!

Não posso esquecer um recorte de Jornal que citava Mário Soares em qualquer coisa como: Em caso de emergência, atire-se contra os colonos Brancos ... algo assim. Acho que esta frase, só por si, é suficiente para ilustrar a dita "pessoa" ...

Tenho pena, muita pena, de não ter estudado na escola o processo de descolonização, mas ainda não era "história"...

Um último ponto para esclarecer: Sou a favor da descolonização (não daquela, ou da forma como foi feita), da independência do País que me viu nascer, quero-o livre da Guerra, quero-o próspero e saudável, a ele, ao povo ...


Oooopsss... falei demais... :(

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terça-feira, 16 de outubro de 2007

Viagem a um passado...


Um passado além daquele que me lembro. Lembro-me, antes, de o ouvir vezes sem conta pela boca da minha avó. De tanto o ouvir, quase podia jurar que me lembro de ter vivido aqueles momentos, mas é impossível. As minhas primeiras recordações são aquelas que lá atrás já contei, naquela magnifica quinta...

Estas que agora conto, reportam ao período que estive no Brasil, entre os meus 4 e 15 meses salvo erro. De tal forma que, segundo rezam as histórias, as primeiras palavras que eu disse foram "Mâe" e "Pâe", mesmo à brasileira. Ao que sei também, delirava a ouvir Roberto Leal, punha-me logo a dançar, mas esta parte passamos à frente, boa? :p

Esta menina irrequieta, pois, era muito bem mandada. Tanto que quando se lhe dizia: "Natacha, não mexe aí" ... a pacanina ia pondo a mão ao mesmo tempo que repetia "Não mexe aí", sendo que logo de seguida estendia a mão e dizia "Tatau" ... Descarada, não? Mas não só.... segundo a minha avó, mesmo que não me estivessem a ver fazer a asneira, eu não deixava créditos por mãos alheias, procurava logo um adulto, de mão estendida, dizendo: "Tatau", mau ,pensavam eles, já fez alguma... e era mesmo verdade...

Compreendo agora esta minha tendência, ou falta de jeito mesmo, para mentir ... porque será??

Lindo lindo, foi quando, de gatas, e chamando pela empregada que vivia do outro lado da rua, me escapuli de casa e me foram apanhar já no meio da estrada, sempre de gatas, chamado "Isaaaa" ... A esta distância, sempre que se fala nisto há sorrisos, mas não imagino o susto de ver uma pacanina atravessar uma estrada perigosa, em cima de uma curva ...

Mas estou aqui, e ainda por cima... nota-se ;)

De vez em quando dá-me para estas coisas da memória... sorry, tá?

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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Há coisas que não se explicam

Porque será que, derepente, do nada, me surge esta música na mente? Uma música que não ouvia há séculos! Hoje, no fim da minha tarde, agradável por sinal ... surge-me ... e não consigo evitar a lágrima ao ouvi-la... Vá-se lá explicar...

A vida é bela e é o sonho que a comanda... Vou perseguir os meus sonhos, ser Feliz!



segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Adenda ao último post!


Pois!! Puxam-me pela língua, a mim, não à vaquinha, e depois não se queixem! :D

A verdade é que, como diz o meu Amigo João Navarro, ao reler o post anterior me surgiram mais algumas memórias, uma das quais não poderia deixar de contar... uma não, na verdade, duas ;)

Como já disse, a propriedade onde se erguia esta vivenda era enorme. Acontece que, caminhando para Norte da propriedade, em passeios com a minha a avó e irmão, era recorrente encontrarmos muitas vaquinhas a pastar controladas pelo Sr. Manel.
Do mesmo modo era recorrente eu ouvir sair da boca do Sr. Manel, e perdoem-me o palavreado: "Ah vacas dum cabrão" (sic.).

Pois a Pacanina, quando a prima Carlota alvitra a hipótese de eu ir dar um recado ao primo que se encontra para esses lados da propriedade, responde: "Eu não, que está lá o Sr. Manel das vacas dum cabrão" ... :D

Escusado será dizer que o meu receio não era pelas vacas, que até lhes fazia festinhas... era mesmo pelo Sr. Manel..... oooopsssss!!

Bom, a segunda, e menos engraçada, mas que me ocorreu foi:

Em frente à dita propriedade passava uma estrada, e depois dessa estrada continuavam terrenos de cultivo onde eu gostava bastante de andar, por entre as couves, as uvas, enfim, sempre o contacto com a terra para mim foi importante... No limite da horta passava uma ribeira, e junto a essa ribeira várias oliveiras. Chegada a altura, que sinceramente não sei dizer qual é, ia com a prima Carlota até lá, estendiamos (gosto de acreditar que eu também ajudava) um lençol, ou algo que o valha, por baixo das oliveiras e enquanto os adultos batiam com as varas nos ramos da oliveira, eu divertia-me a recolher as azeitonas que saiam fora do dito lençol.
Ora numa destas empreitadas, não é que a prima Carlota "resolve" cair à ribeira!!??
Lembro-me de ficar entre o assustada e o perdida de riso... acho que ela não gostou muito :D

Bem, já chega! Já chega de passado, bora lá masé encarar o presente e construir o futuro ;)

Beijos! Pacaninos...

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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Medo!



Olho para trás e vejo-me.

Tinhamos chegado de Angola, ou melhor, do Brasil, para onde fomos quando saímos de Angola e onde permanecemos alguns meses (tirando o meu pai que foi para a RSA).





Cá em Portugal, há falta de ter onde ficar, acabámos por ficar numa casa enorme, uma vivenda, com piscina e tudo (vazia, só mesmo uma tartaruga lá vivia) onde uns primos dos meus avós eram caseiros e os donos emigrados, (sim, com conhecimento e autorização dos mesmos!) por especial favor.



Havia animais, desde galinhas a coelhos e a porcos, havia jardins enormes, lembro-me de toda aquela imensidão aos olhos de pacanina... lembro-me de corredores feitos de Hortênsias lilases e rosa, lembro-me das enormes varandas, lembro-me da escadaria, dos salões, da resmunguisse do padrinho da minha mãe, do meu primeiro Natal, da queda do meu primeiro dente, da ida do meu irmão para a primária.

Bem analisado ainda terei lá morado cerca de 4 anos.


Das coisas que mais marcam a minha memória desses tempos de pacanina e destemida:

  • Ao lado da minha avó, deitadas nos colchões no chão, a rezar : "Anjo da guarda minha companhia, guardai minha alma de noite e de dia"


  • Subir e descer aquelas escadas enormes para ir buscar ao quarto os óculos da minha mãe. Às escuras e de gatas... sem medos.


  • Ver fazer chouriços, fazer queijo, migar as couves para a criação e o pior de sempre: assistir à matança do porco :(


  • Cair durante uma festa em cima duma grade de cervejas e cortar bem perto do pulso. O meu pai a colocar-me na ferida, não recordo se a cinza ,se mesmo o tabaco antes de queimado. E depois ser cozida e assistir a tudo impávida e serena, sem uma lágrima.


  • O feitio do padrinho da minha mãe era algo ... diferente... o fogareiro estava aceso no meio da sala e as castanhas e batatas doces assavam, passei a correr para que ele não reclamasse e caí de barriga em cima do fogareiro...


  • A crueldade ingénua de ter partido os ovos que estavam a ser chocados e ter visto os pintaínhos ainda em "formação". A defesa do meu irmão perante a prima Carlota.


  • A cobra que o meu pai matou à entrada da casa.

  • Descer as escadas no 25 de Dezembro e encontrar, não obstante tantas dificuldades, os tão ansiados presentes que, curioso, não consigo lembrar. Apenas recordo os do meu irmão.

Fui feliz naquele tempo, era pacanina, ingénua e pura. Não tinha noção de todas as dificuldades porque passavam os meus pais, nem que a casa não era nossa, nem que não poderiamos ficar mais... mas não tinha medo...





E hoje tenho medo! Tenho 32 anos, sinto-me desprotegida por não ter a ingenuinidade da criança, embora a criança ainda viva em mim!

[No local onde existiu outrora esta bela casa, nasceu posteriormente uma grande urbanização. Esta casa situava-se em rio de Mouro, Mem Martins.]


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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Vida e Amor


As lembranças que aqui conto
são de um tempo em que eu pensava
que o amor que eu sentia
para toda a vida durava...
Pois agora tenho a certeza!
Não são assim todos os amores!!??
Duram enquanto há vida
e enquanto há vida há amores
Cada amor tem uma vida
E toda a vida é o amor...
E o amor é tudo o que fazemos
Com dedicação e entrega
A vida que tanto amamos
em constante descoberta
e quando um dia a vida
Nos pregar uma partida
poderei seguir feliz...
pois fui tua toda a vida...

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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Destino...


Deambulo pelos labirintos do meu imaginário
Não tenho metas a atingir ou planos definidos
Aguardo simplesmente pelo que me está destinado
Busco apenas os sentimentos outrora sentidos

Fecho os olhos como que procurando sentir o teu cheiro
Respiro fundo e sinto o odor que me inebria
Pergunto-me quantas vezes terei que o fazer
Porque não te tenho perto de mim como queria

Vivo dia a dia num plano fora de mim
Encontro-me presa na linha do horizonte
Lá, onde o mar e o céu se confundem
Lá, onde aguardo que o Sol me confronte ...

Do Rei Sol recebo a energia que me mantém sóbria
Abro os braços e aconchego-me no seu abraço
Neste momento aqui e agora, percebi
eu própria o meu Destino traço ...

Gosto de estar aqui!!

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sábado, 28 de julho de 2007

Infância

Eu


Lembrei-me agora nem sei bem porquê, mas dei por mim lembrando uma cena da minha infância, mas daquela infância da escola primária mesmo...

Fiz a escola primária na Amadora, e um dos nossos passeios um dia foi ao Parque do Alvito (acho que assim se chama) em Lisboa... isto nos early 80.

No meio de correrias, brincadeiras, muita galhofa... havia muita gente e não sei sequer se existiria naquela altura a preocupação de hoje na segurança das crianças, penso mesmo que não, talvez não houvesse mesmo essa necessidade, eramos todos tão mais livres, tão mais felizes ...
Havia também uma senhora que vendia nougats, chapéuzinhos de chocolate e aquelas tabletes Regina maravilhosas, as tradicionais de chocolate e aquela amêndoa bem partidinha, e umas outras com sabor a anánas, morango, etc ... (só de recordar me cresce água na boca...)

Pois no meio de uma brincadeira qualquer, encontro no chão um desses chocolates. Recordo que não precisei pensar duas vezes até decidir a devolução à vendedora (mesmo ali ao lado) da pequena tablete (diz-se assim!?), perante os olhares escandalizados dos amigos que já se viam a saborear o dito chocolate...
Como recompensa pela minha atitude, e já na presença da minha professora, recebi essa mesma tablete ... fiquei super orgulhosa e, como sempre... coradissíma :)

À distância de vinte e tal anos (Puxa, o tempo passa:D) concluo que nessa altura já tinha um apurado sentido de justiça que muitos confundiam e confundem com: ser otária e até autoritária... E como sempre, ou não tivesse eu por natureza o nariz arrebitado ... não estou nem aí!!

Chamam-me irreverente e... eu até gosto :)


Não sei porque me vieram estas lembranças... mas souberam-me bem, souberam-me a tempos muito felizes para mim, e pensar que eram tempos tão difíceis para os meus pais ... Como é bom ser ingénuo, ser criança, ser verdadeiro e puro...


Bom fim de semana...