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domingo, 10 de agosto de 2008

Coração de ouro


(...) Ninguém tinha levado uma flor sequer para a minha professora D. Cecília Paim. Devia ser porque ela era feia. Se ela não tivesse uma pintinha no olho, não era tão feia. Mas era a única que dava um tostão pra mim pra comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.
Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. Só o copo da minha continuava vazio.

(...)

A escola. A flor. A flor. A escola...

Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou pra flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.
Quando terminou a aula me chamou.
- Quero falar uma coisa com você, Zézé. Espere um pouco.
(...)

- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zézé. É verdade?
(...)
- Da flor? É sim, senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que não faz falta.
- Sim. mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso.
(...)
Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro... E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?...
- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some...
- Eu não podia aceitar todos os dias...
- Porquê?
- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
- A senhora não vê a Corujinha?
-Quem é a Corujinha?
- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
-Sei, a Dorotília.
- É sim senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu e as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Eu divido o sonho que a senhora me dá com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo o sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido meu sonho porque mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
- Não é isso Zézé. Venha cá.
Pegou as minhas mãos entre as dela.
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zézé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
- Não tem importância. Pra mim você tem. de agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma, você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro...


in O Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos

Sonhos doces podem ser também o querer acreditar que esta doçura, ternura e pureza podem existir sempre... e eu sou uma sonhadora!!!


E para quem está com dificuldade em chorar para libertar muito do que vai dentro de si... um bom conselho, este livro... chora-se da primeira à última página e repete-se vezes sem conta ao longo dos anos...

... eu diria... é de ler e chorar por mais... tanto ou mais, só mesmo vendo o filme "O campeão" - Minha nossa!!

Eu também vejo SEMPRE a minha flor... ela está lá...

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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Caçador de mim


Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Não percam a oportunidade de ouvir esta música cantada por Milton Nascimento. Procurei no youtube, mas apenas composições de imagens e não o Milton a cantar como eu gostaria... assim fica o registo de uma letra... especial.

Lembras? Eu tenho lembrado bastante, esta... e outras...

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terça-feira, 8 de julho de 2008

Aparências...



As coisas mais bonitas podem surgir nas condições mais adversas...

... como estas flores nasceram num lugar aparentemente inóspito, como seja a muralha do Forte de S. Filipe, em Setúbal... Como eu costumo dizer, as aludências aparudem, ou seja ... as aparências iludem :D

Como tal... a Esperança é a última a morrer e...

"...há dias que marcam a alma e a vida da gente..." Mariza in Chuva

Hoje é mais um "primeiro dia do resto da minha vida!!" Sérgio Godinho in o primeiro dia

... P'ra semana há mais :D

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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Só porque...

Fotografia de Fernando Lusbelo - Embondeiro - Angola


Eu fui devagarinho, com medo de falhar
nao fosse esse o caminho certo para te encontrar
fui descobrindo devagar cada sorriso teu
fui aprendendo a procurar por entre sonhos meus

Eu fui assim chegando, sem entender porquê
já foram tantas vezes, tantas assim como esta vez
mas é mais fundo o teu olhar, mais do que eu sei dizer
é um abrigo para voltar,ou um mar pra me perder

Lá fora, o vento, nem sempre sabe a liberdade
a gente finge mas sabe o que nao é verdade
foge ao vazio, enquanto brinda, dança e salta
eu trago-te comigo e sinto tanto tanto a tua falta

Eu fui entrando pouco a pouco, abri a porta e vi
que havia lume aceso e um lugar pra mim
quase me assusta descobrir que foi este sabor
que a vida inteira procurei entre a paixao e a dor

Lá fora, o vento, nem sempre sabe a liberdade
gente perdida balança entre o sonho e a verdade
foge ao vazio, enquanto brinda, dança e salta
eu trago-te comigo, e sinto tanto tanto a tua falta

Lá fora, o vento, nem sempre sabe a liberdade
gente perdida balança entre o sonho e a verdade
foge ao vazio, enquanto bebe, dança e ri
eu trago-te comigo

e guardo este abraço só pra ti !

Gente Perdida - Mafalda Veiga

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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Fernando Pessoa


Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

Quando me amei de verdade...

Um dia eu chego lá!! Oh laré! tenho praticado bastante e com preciosas ajudas ;)
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quinta-feira, 29 de maio de 2008

O Encanto do Varão

Fotografia de Fernando Lusbelo


Dias nostálgicos, tristes, vazios... sem sentido
Dias de reflexão, de porquês, de busca de soluções
E derrepente um sinal, uma luz, uma esperança
Invade de novo os nossos corações...

Enganamo-nos a nós próprios, será?
Ou é legítima esta nossa momentânea esperança
Que o que escondemos atrás de meias palavras
É o que sentimos e que vive na nossa lembrança?

Morrer um pouquinho em cada dia que passa
Pela ausência do que nos faz seguir em frente
Renascer a cada sinal que é dado
A cada palavra que ressoa na minha mente

Eu


*************

" SER é Amar amando,
É sentir que sentindo o vive...
por vezes nem sabendo que,
o doce e o amargo no amor
A Amar, têm o mesmo sabor..."

JA

Este é o encanto do Varão que hoje, passados meses sobre o "fim" ainda suscitam tanta saudade como se pode ver nesta mensagem recebida esta semana de um outro querido amigo que não identifico por ainda não ter falado com ele...

"Olá NATACHA!

Passeando pelos caminhos esquecidos daquela que já foi uma "grande e colorida Sanzala" os meus passos levaram-me à rua da casa do JORGE, carinhosamente GINDUNGO. olhei para o Muro e vi o VARÃO onde nos sentávamos e, despretenciosamente, contavamos contos, sonhavamos lugares, amavamos a poesia dita e escrita e cultivavamos a beleza, o carinho e a amizade que era um misto de cumplicidade e afectos.

Nesse momento mágico vislumbrei-te sentada,no varão, com as mãos abandonadas no colo, os olhos brilhantes de alegria e um sorriso eterno de felicidade nos lábios. Que é feito desses momentos mágicos e singulares?

Sinto uma grande saudade!!!!!

Beijo ao TOMÁS.

Carinhosamente"

MEL

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Serginho - Agradecimento devido

Serginho


Eu avisei!! :D

Alguém também especial. Sempre disse que tinha nos meus amigos da Sanzalangola, um Top5, mesmo que o Top5 seja de mais alguns e não só de 5 :D. Neste Top5 não existe um primeiro ou um último, todos ao mesmo nível mesmo se de modo diferente. As relações não são iguais, os níveis de partilha não são iguais, pode haver muita coisa diferente, mas há algo em todos igual: a excelência da Amizade, para além de todos serem angolanos.

Sérgio Monteiro, o Serginho, duma maneira diferente do JA, com uma cumplicidade diferente mas que não deixa de ser cumplicidade. Mais reservado, mas assertivo, directo e brilhante na forma como nos oferece "Um café no Muro"... Muito para me ensinar, a todos penso eu, do que é sentir Angola...

Por tudo isto e também porque pelas mãos do Serginho, como se vê na foto, pude, junto com o JA pisar Angola, conhecer em presença, de espírito pelo menos, aquele que foi o verdadeiro varão (inexistente já) do muro da casa do JA em Moçâmedes! O simples gesto de nos levar, mesmo se em folhas de papel pintados, a um local que nos é tão querido, diz-nos tanto da pessoa, né? Ninguém imagina a minha felicidade quase infantil ao receber esta foto! Ali estou eu, numa mensagem escrita na Sanzalangola...

Àquele que um dia me disse "a verdadeira Natacha é Mucubal", isto relacionado com a minha escita no Varão...


OBRIGADA SEMPRE POR TUDO!!

Fica "Um café no Muro", antes da partida:


"Contam-se os dias, horas e minutos, agora em fase decrescente a ansiedade e expectativa aumentam a cada momento, sucedem-se dezenas de memorandos de muitas coisas, umas grandes outras pequenas mas todas elas importantes, vacinas, o que levar, como agir perante a realidade que vamos encontrar após um interregno de três décadas, o que rapidamente se deve absorver na informação para actualização de dados da nossa memória para que se possa minimizar efeitos não desejados. Perante tal caos de pensamentos resta ter Fé e acreditar que tudo correrá pelo melhor pelo que se amou, e tudo correrá maravilhosamente bem pelo que ainda se pode vir a respeitar e a reaprender a amar aquela terra num novo ciclo de vida, agora diferente e amargamente madura, estropiada até e a precisar de todos os que a amem verdadeiramente. Assim o penso agora e depois de lá estar tirarei ilações.
Estive com o meu irmão que me disse assim, " na vida até agora só me arrependo das coisas que não fiz ", que eu subscrevo e retorqui "o que fiz de errado só serviu para me corrigir e não me arrependo ". Sintonia em pensamento e tirada a prova de que é inalienável o que sentimos cá dentro por aquilo que deixamos forçados.
Quero que se compreenda acima de tudo de que não se trata de saudosismo dos tempos de outrora, já me havia referido num poema sobre " as saudades" e a Saudade, a primeira é simples e tem tudo de bom, faz-nos regressar ao útero, aos sabores e aromas da terra que nos viu nascer, terra vermelha e profícua, terra negra ressequida e sedenta de água, das épocas juvenis das brincadeiras, dos namoricos e partidas, das caçadas e pescarias, dos piqueniques, das festas da cidade, das praias e calemas, da trovoada e chuva ao sol, apanhar salalé, das imensas anharas, das quedas de água, dos liceus e escolas, das gentes do campo e da cidade, dos mercados, do emprego e vida comungada com seus pares até onde a cada um no tempo teve lugar ao seu adeus do que amou verdadeiramente. Para a Saudade eu farei por esquecer que existe porque magoa. Remeto-lhe o meu silêncio.
A cada dia por lá passado caberá o conteúdo de ano e meio não vivido naquela terra, são trinta anos, mas saberão a pouco os dias que lá esperamos viver e provavelmente com intensidade redobrada, porque ao olhar-se para alguns locais estaremos a ver também com os vossos olhares , e recordaremos na hora de quem falou deste ou daquele local.
Depois disto já nada teremos para nos arrepender "

Sérgio Monteiro - 30/07/2006

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Beijo


Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.

Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.

Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Pedro Abrunhosa

Impressionante!! E mais não digo...

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terça-feira, 15 de abril de 2008

VIDA


Na vida, existem momentos em que você sente tanto a falta de alguém, que somente realizaria seus sonhos envolvendo esse alguém firmemente em seus braços.

Quando uma porta de felicidade é fechada, outra é aberta; mas insistimos em olhar para a porta fechada, e não percebemos aquela que acabou de se abrir.

Não confie nas aparências; frequentemente elas são falsas.
Não se preocupe com a abundância; ela desaparecerá.
Procure alguém que se comunique com você com sorrisos; um sorriso transforma seu dia triste.

Sonhe o que quer que você queira sonhar.
Vá aonde você quiser.
Procure aquilo que deseja.

Porque sua vida é aquilo que você faz dela.

Os que têm mais sorte, inevitavelmente não conseguem o melhor dos melhores.
Eles simplesmente buscam o melhor do que vêem na sua jornada.

O mais lindo futuro sempre dependerá da necessidade de se esquecer o passado. Você não conseguirá se livrar dele se não conseguir superar os erros cometidos e tudo aquilo que te machucou.

Nunca perca a oportunidade de iluminar a vida de uma pessoa que precisa de umas poucas palavras de incentivo.

Viva a vida plenamente, e sempre sorria, apesar dos momentos de dificuldade.

A vida não se conta pelo número de vezes que você respirou, mas pelos momentos em que você perdeu a respiração.

A vida é bela !!!

** Recebido por email

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sexta-feira, 28 de março de 2008

Númeno

Fotografia de Fernando Lusbelo

Lembro-me das aulas de Filosofia do 12º ano. Não era grande fã, pelo que tinha passado no 10º e 11º ano com o famoso professor João Pedro (cego), rigorosissímo e que um dia me deixou gelada quando, sentada de lado na cadeira e olhando pela janela lá bem fundo no horizonte e alheada de tudo ele me disse: "Natacha, porquê esse ar tão pensativo?" - Oppps, pensei eu... quéquéisto!? :D Era prática nas aulas lermos os textos do livro em voz alta e era ele quem ordenava quem lia e mudava derrepente o leitor para verificar que todos estavam seguindo a lição - e estavam :D

Bom, mas já estou a fugir ao tema, só o Professor João Pedro daria um post :)

Notamos todos quantos tinhamos tido este professor, que chegámos ao 12º ano em clara vantagem sobre os que tinham vindo de outras escolas. Encontrámos uma outra excelente professora, nortenha e de pronúncia peculiar... Sobre esta professora tenho duas especiais recordações...

A primeira, quando ela muito entusiasmada nos informa de que já preparou o teste e que ia sair algo do Principezinho para ser comentado à luz da matéria dada. Disse-lhe: "Professora, Só com o coração se vê bem - o essencial é invisível ao olhar" - olhou para mim quase com terror, como quem diz: tanto tempo para preparar e agora... Perguntou-me como sabia, mas se para mim aquela é a frase que me acompanha desde sempre - achei que só poderia ser. Limitou-se a dizer à turma: "Aproveitem a deixa" :D

A outra... quando muito entusiasmada, como sempre, falava de Kant - o fenómeno e o númeno a que também se poderia chamar noumeno e bla bla bla. Ora, como ela era da invicta, saíu-me um: "professora, mas noumeno é com pronúncia não é? " - ainda me lembro da cara dela, corou e desatou a rir com toda a turma...

Mas é de númeno que quero falar, o númeno de Kant de quem muito me tenho lembrado e não será pelo trabalhão que me deu (mas que me valeu um 78% na Prova de Aferição)... O que é o númeno de Kant? Utilizarei a wikipédia para explicar pois já não saberia como por palavras minhas:

Númeno, no kantismo, é a realidade tal como existe em si mesma, de forma independente da perspectiva necessariamente parcial em que se dá todo o conhecimento humano; coisa-em-si, nômeno, noúmeno (Embora possa ser meramente pensado, por definição é um objeto incognoscível.)
Obs.: por "perspectiva necessariamente parcial" devemos entender por aquilo que ocorre no tempo, portanto númeno é uma realidade que não depende do tempo para existir, e por isso o conceito de númeno se opõe ao conceito de fenômeno ('no kantismo'). Equivale a uma realidade absoluta.

Ou no dicionário:

do Gr. noumenon, coisa pensada

s. m., Filos.,
objecto do pensamento por oposição a objecto sensível;
na filosofia kantiana, a coisa tal como é em si mesma e que escapa às possibilidades de conhecimento do homem, a quem só é dado a conhecer o fenómeno;
aquilo que o espírito pensa, mas não conhece.

Númeno é pois, segundo Kant, a coisa em si ...

Não vale mesmo a pena!! A coisa em si é alheia a toda e qualquer perspectiva com que a queiramos ver, medir, julgar... É a realidade, nua e crua... fenómeno é a realidade criada por cada um de nós, pela nossa sensibilidade...

Dá que pensar... digo eu...




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quinta-feira, 27 de março de 2008

Quem disse que era fácil?... ou difícil...


Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só...

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência...

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta...


Fácil é querer ser o que quiser.
Difícil é ter certeza do que realmente és...

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar (ou vice-versa)...


Fácil é beijar.
Difícil é entregar a alma...

Fácil é ferir quem nos ama.
Difícil é tentar curar esta ferida...


Fácil é exibir sua vitória a todos.
Difícil é assumir a sua derrota com dignidade...

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho...


Fácil é admirar uma lua cheia.
Difícil é enxergar sua outra face...

Fácil é saber que está rodeado por pessoas queridas.
Difícil é saber que está se sentindo só no meio delas...

Fácil é viver o presente.
Difícil é se desenvencilhar do passado...

Fácil é tropeçar em uma pedra.
Difícil é levantar de uma queda, toda machucada...


Fácil é rezar todas as noites.
Difícil é encontrar Deus nas pequenas coisas...

Fácil é desfrutar a vida a cada dia.
Difícil é dar o verdadeiro valor a ela...

Carlos Drummond de Andrade


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quarta-feira, 26 de março de 2008

Metade...


" el amor se puede provocar pero no se puede impedir"

Eduardo Galeano


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza

Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante

Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas

Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço

Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável

Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito

E que o seu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba

E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer

Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor

e a outra metade também.

Oswaldo Montenegro


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segunda-feira, 24 de março de 2008

Intensidade


"Vive a vida o mais intensamente que puderes.
Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes.
E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê."

Vergílio Ferreira

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia Mundial da Poesia

Este era um dia que eu não podia deixar passar em branco ... tarde... mas nunca é tarde para a Poesia.
Deixo-vos um Poema daquele que é para mim "o Poeta", sublime diria... Fernando Pessoa! Pela voz de uma grande senhora também: Maria Bethânia.





Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Príncipe - Pedro Paixão


Desejei-te ontem, de mais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te noutros corpos, mas só o teu amo de olhos abertos. Amo-te de mais. Dormi agarrada à camisola de que te esqueceste. Ela ainda tem o teu cheiro. Vou guardá-la numa caixa para continuar perfumada. Não te a darei de volta. Não peço o teu amor. De ti não exijo nada. Mas nunca me digas que o amor é impossível. Tu fazes-me viver, sonhar, acordar com pesadelos. Tu és o meu diamante solítário e entre nós não há qualquer contrato. Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Quando te escrevo tu ressuscitas a minha alma. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto, meu príncipe das trevas, lindo. Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja o bastante. É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, eras tu que mo dizias. Eu não concordo. Desculpa-me príncipe, o ter-te acordado hoje tão cedo. Tu sabes que não uso relógio. Só sei se é dia, se é noite. Tu sabes que eu sou uma apaixonada. Perdoa-me. Diz qualquer coisa logo que possas. Sinto saudades, é só. Não existe corpo, não existe face, não existe sexo e existe tudo isso. Só o amor é imortal, acredita.

in Asfixia, Pedro Paixão

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quinta-feira, 13 de março de 2008

Lágrima de Preta



Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

Um dos meus poemas preferidos de António Gedeão...


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quinta-feira, 6 de março de 2008

Tocando em frente


Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais..
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe?
Eu só levo a certeza do que muito pouco eu sei..

E nada sei..

Conhecer as manhas e as manhãs...
O sabor das massas e das maçãs...
É preciso amor para poder pulsar..
É preciso paz para poder sorrir..
É preciso chuva para florir..

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente..
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada
Eu sou...
e pela estrada eu vou...

Conhecer as manhas e as manhãs...
O sabor das massas e das maçãs...
É preciso amor para poder pulsar..
É preciso paz para poder sorrir..
É preciso chuva para florir..

Todo o mundo ama um dia..
todo o mundo chora..
Um dia a gente chega..
o outro vai embora..
Cada um de nós compôe a sua história..
e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz....

Conhecer as manhas e as manhãs...
O sabor das massas e das maçãs...
É preciso amor para poder pulsar..
É preciso paz pra poder sorrir..
É preciso chuva para florir..

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais..
Cada um de nós compôe a sua história..
e cada ser em si carrega o dom de ser capaz...

...de ser feliz..

Maria Bethânia

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quarta-feira, 5 de março de 2008

Ao teu sorriso...

Sem foto, porque qualquer foto ficaria muito aquém da beleza do teu sorriso - nada se lhe compara!
O SORRISO

"Creio que foi o sorriso,
Sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
Lá dentro, apetecia
Entrar nele, tirar a roupa, ficar
Nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso."

Eugénio de Andrade



As Linhas Do Teu Sorriso

Percorro de memória
as linhas do teu sorriso
de um traço sonhador
e um leve travo a saudade.
São como um convite
esses lábios que enfeitiçam
murmuram desejos
insinuam promessas
e incendeiam a vontade!
Percorro de memória
esses caminhos que foram meus
e que sei de cor ainda.
E por momentos fico assim,
perdida na lembrança
do delinear de um beijo...

Maria José Carvalho
Quando as palavras dos outros se encaixam no nosso sentir...
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Para pensar...


"Quando a gente pensa que sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas... "

Um sujeito estava colocando flores no túmulo de um parente, quando vê
um chinês colocando um prato de arroz na Lápide ao lado.
Ele se vira para o chinês e pergunta:
- Desculpe, mas o senhor acha mesmo que o seu defunto virá comer o arroz?
E o chinês responde:
- Sim, e geralmente na mesma hora que o seu vem cheirar as flores!!!"

"RESPEITAR AS OPÇÕES DO OUTRO, EM QUALQUER ASPECTO, É UMA DAS MAIORES VIRTUDES QUE UM SER HUMANO PODE TER."




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